(Plinio Marcos)
Eu não entrei na trilha dos saltibancos por acaso, nem para ser o reles fazedor de graça. Eu queria consagrar a minha vida através de um imperioso apelo vocacional. Mas as pessoas, com suas receitas de sucesso, sem nenhum escrúpulo, sem nennhuma sensibilidade vieram me falar de mil e um palhaços geniais.
Escutei humilde a história de cada um desses incríveis artistas que viajavam pelas vias da loucura. Mas, saber desses palhaços para mim, Bobo Plin, um palhacinho de merda que começava a engatinhar nos picadeiros mal iluminados das espeluncas, só serviu para me tolher.
Quanto mais eu sabia deles, mais e mais, Bobo Plin, o palhaço que eu queria ser, se enroscava nas minhas entranhas. A referência esmagava a minha intuição e me forçava a autocensura. A comparação, a maldita inimiga da igualdade, fazia os magníficos histriões, elementos inibidores da minha criatividade. Agora, eu não quero. Bobo Plin, não quer saber das façanhas desses belos palhaços. Não quero vê-los. Nem saber dos seus bigodes, sapatões, quizos, pompons, bolas, balões e babados. A magia dos grandes artistas, não pode ser ensinada. São segredos que se aprende com o coração, mas ninguém ensina. Essa magia se manifesta quando se resolve fazer a própria alma. Para Bobo Plin se irmanar com os grandes palhaços que luziram nos palcos e picadeiros, tem que se esquecer deles para sempre. Não pode recolher nenhuma indicação que eles deixaram no caminho. Bobo Plin tem que andar sem bússola na mais tenebrosa escuridão. Qualquer brilho, qualquer estrela, qualquer ponto referencial é um ponto hipnótico embrutecedor…E eu quero fazer a minha alma.
Texto da peça “Balada de um Palhaço” criação de Walderez de Barros.